A violência tem cor

A ideia contemporânea de Direitos Humanos surge do desafio de grandes pensadores do século XX, ao tentar entender como, tantos alemães, tornaram rotina lidar com a brutalidade da tragédia que ocorria durante o holocausto. Tal fenômeno, Hannah Arendt descreveu como a banalização do mal.

 

O referido fenômeno deve ser um instrumento de estudo no Brasil, pois, em um período de 30 anos, cerca de 1 milhão de pessoas foram assassinadas. O nosso país é responsável por 10% dos homicídios do mundo! Mata-se mais, por aqui, do que somados os principais conflitos armados do planeta. Achar isso banal é entregar-se à epidemia da indiferença.

 

Então, qual o porquê de tanta indiferença? Vamos aos fatos: De acordo com o Atlas da Violência/2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a cada 23 minutos, um/a jovem negro/a é morto/a no Brasil. A chance de um/a jovem negro/a ser assassinado/a é 12 vezes maior do que a de um/a jovem branco/a. Por dia são cerca de 63 vidas perdidas, muitas das quais são vítimas do próprio Estado. Os assassinatos de mulheres negras aumentaram 22%, enquanto, entre mulheres não negras, o índice foi reduzido em 11%. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Enquanto a mortalidade de pessoas não negras diminuiu 12,2% entre 2005 e 2015, a taxa de homicídios de pessoas negras aumentou 18,2% no mesmo período.

 

Não nos enganemos, os que morrem são em sua maioria negros e negras pobres. Não percebemos que, por trás do número de um milhão de mortos, há um milhão de vidas roubadas, histórias interrompidas. Tornamos tudo isso invisível. Para o filósofo Jean Paul Sartre, há uma diferença entre o/a trabalhador/a branco/a e o/a negro/a, pois, apesar de ambos sofrerem as dificuldades da pobreza, o/a negro/a sofre como negro/a, isto é, além da falta de recursos ele encontra a discriminação junto àqueles que também são pobres e oprimidos/as.

 

Segundo pesquisa da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Governo Federal, 56% das pessoas entrevistadas afirmam que as mortes de negros e negras chocam menos do que as de brancos/as. Confirmando a pesquisa, citamos o caso da Somália, onde ocorreu, no dia 14 outubro de 2017, um dos atentados mais violentos da história. E devemos questionar: qual a razão da baixa cobertura midiática e a pouca comoção em torno das mais de 500 vítimas (entre mortos e feridos) do ataque ao centro da capital Mogadíscio? Representantes de ONGs, jornalistas e acadêmicos do mundo todo se perguntaram por que não surgiu rapidamente um “Je suis Somália” ou coisa do tipo.

 

O povo negro é vítima de todo um processo histórico de exclusão e opressão social. Após a abolição, a esperada cidadania não aconteceu e, até hoje, é uma luta constante, em uma sociedade em que a desigualdade racial é arraigada e as tentativas de apagar a memória da barbárie contra os/as escravos/as são permanentes. Mudaram as aparências, mas a essência das relações sociais não mudou ao longo dos tempos.

 

A atitude do Estado para a reparação da população negra é omissa: a miséria material, a discriminação e a humilhação vividas pelos/as afrodescendentes, são presentes até os dias atuais e acabam sendo reduzidas à culpa deles/as mesmos/as, por meio de uma manobra ideológica que transforma o que é da esfera das relações de poder em algo natural. Apesar do discurso que nega ou ameniza a presença do preconceito e da discriminação racial no país, as manifestações de racismo estão presentes no cotidiano da sociedade brasileira. Ora ele é escancarado, como nos massacres frequentes; ora é silencioso, como as vidas ceifadas pelo extermínio policial, que põe, constantemente, os negros e as negras sob suspeita, destacando-se as meninas e mulheres afrodescendentes, que são mais suscetíveis a diferentes formas de abuso, incluindo violência sexual e doméstica. Há ainda outras formas de serem discriminados/as na esfera social, como a vida em favelas e periferias, a dificuldade ao acesso à justiça, ao mercado de trabalho, à educação, à saúde, onde reina um ‘apartheid’ constante e velado, através da criação da justiça de brancos/as e de negros/as, das escolas de brancos/as e as de negros/as.

 

A construção de estratégias coletivas de luta deve ser um produto da organização política de toda a população na defesa dos direitos historicamente anulados. Jaciara da Silva, do Movimento Negro Unificado, afirma que: “Precisamos exigir políticas públicas para o país. Essa juventude é violentada também quando não tem acesso ao mercado de trabalho, não tem lugar na escola e não é representada na mídia”. Nossa responsabilidade histórica é responder aos desafios que estão colocados, através de organizações políticas que representem os anseios do povo negro desse país. Este é um desafio político fundamental para a militância negra e de todos os movimentos sociais que lutam pela emancipação humana.

 

UBUNTU: SOU o que SOU pelo que NÓS SOMOS!