Educar, não lucrar!

Durante a semana próxima passada, representantes do SINPROJA estiveram em Belo Horizonte participando do IV Encontro do Movimento Pedagógico Latino-Americano, juntamente com cerca de 750 dirigentes sindicais de 21 países da América Latina, Estados Unidos, França, Suécia, Noruega e Espanha.  Foram dias de intensos debates, muita interação, aprendizado e planejamento. Aqui apresentamos um breve resumo do encontro de pessoas e entidades comprometidas com uma educação pública, democrática, laica, emancipadora.

 

Ladislau Dowbor, economista e professor de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, além de autor de mais de 40 livros, afirmou que o conhecimento é o principal fator de produção e está no centro dos processos econômicos, além de ser a matéria prima da educação, observando que o sistema financeiro passou a controlar o produtivo. Ressaltou que a educação se mobiliza para definir seus conteúdos, para democratizar o acesso ao conhecimento, em razão disso, muitos governos, por meio de medidas de apoio ao mercado, tentam interferir no sistema educacional.

 

Lasdilau não poupou críticas ao projeto da escola sem partido. “Não se pode aceitar essa política que prega que as pessoas possam decorar certos conteúdos, mas não podem entender como são as coisas. O essencial de um educador é explicar como funciona o sistema e como estão articulados os diversos sistemas do conhecimento”.

 

O professor e deputado federal da República da Argentina, Axel Kicillof, disse ser necessário resgatar a educação como instrumento de libertação das pessoas, bem como a organização dos sindicatos e a integração regional para vencer o neoliberalismo. Para ele, a melhor forma de se enfrentar a crise não é retirando diretos dos trabalhadores, como estão ocorrendo em vários países latinos, como no Brasil e na Argentina. “Ao contrário, defender os trabalhadores é a melhor forma de enfrentarmos a crise”, destacou.

Para o deputado argentino, a única receita para sair do subdesenvolvimento e do neoliberalismo é a unidade dos movimentos. “Precisamos da resistência e da luta popular.” Ele lembra que a educação pública atenta contra o projeto neoliberal. “Entendemos a educação como direito, por meio da liberdade e precisamos de pensamento crítico para vencer esses desafios e não aceitar as imposições do neoliberalismo”, concluiu.

 

Nilma Lino, ex-ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos no Governo de Dilma Rousseff, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a primeira mulher negra no Brasil a comandar uma universidade federal, defende uma radicalização na própria política de direitos humanos para que seja considerada a diversidade e apresentou algumas propostas, dentre elas, “entender o colonialismo e a colonialidade como formas de não existência, indo além da ideia da tolerância; superar a concepção da enorme distância ainda presente nas políticas sociais e educacionais que tentam educar os sujeitos pertencentes aos coletivos sociais diversos, partindo do pressuposto de que ainda não são humanos, logo não são educados e não produzem conhecimento”.

 

Gustavo Fischman, Titular no Mary Lou Fulton Teacher’s College do Arizona State University e coordenador da área de Comunidades de Pesquisa, Conhecimento Público e Democracia da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso/RJ), disse que experiência mundial demonstra que os sistemas que mais avançaram na privatização e na comercialização, em fazer os docentes menos profissionais e mais dependentes das tecnologias preconcebidas, são muito simplistas, que os resultados obtidos nas provas acadêmicas são reprovados pelos mesmos organismos que querem privatizar. Afirmou que os países que melhor tratam os docentes, que tem melhor diálogo com sindicatos são países com melhor desempenho educativos. “Inclusive nos EUA, o estado que tem maior taxa de sindicalização dos docentes, que tem melhor regulação do sistema, tem, sozinho, resultados melhores que o da Finlândia”, comentou Fischman, referindo-se ao estado de Massachusetts. Disse ainda que, os meios de comunicação que têm interesses na privatização iniciam a campanha para fomentar essa crise, colocando os professores como os vilões dessa situação, transformando a educação privada em oportunidade de negócio lucrativo.

 

Fischman ressaltou que não pode conceber a profissionalização dos docentes sem a defesa clara do espaço escolar como local de trabalho, seguro para os educadores e para os alunos e neste processo o sindicato tem muita força. “Não consigo entender profissionais docentes sem boa capacitação e isso se consegue somente com sindicatos fortes”, reiterou.

 

David Edwards, Secretário Geral Adjunto da Internacional da Educação, declarou que os governos neoliberais que estão promovendo a comercialização e privatização da educação, muitos usando o argumento de que o ensino particular é melhor que o público, não vão conseguir avançar em suas decisões. A campanha “Educar, não Lucrar” vai chegar brevemente nas salas de aulas brasileiras.

 

O australiano Angelo Gavrielatos, diretor mundial da Campanha contra a Privatização e Comércio Educativo da Internacional da Educação, percorre o mundo fazendo os levantamentos sobre as condições de atuação das grandes corporações que buscam o lucro na educação, que em 2020 deve ser de U$ 6,3 trilhões de dólares. Para ele, a única forma de evitar a expansão da privatização e comercialização é uma resposta global, com a união das organizações sindicais. “Temos que pensar global e agir no local”, afirmou ele.“O Banco Mundial tem relatórios que diz que a privatização traz muitos riscos para a educação, que não é algo novo para vários outros organismos internacionais. Por isso, consideramos que o Banco atua com a hipocrisia organizada, pois sabe do prejuízo que causa a medida e continua incentivando a privatização”, ressaltou Angelo Gavrielatos, destacando que as corporações não respeitam fronteiras e nem as democracias, por isso considera essencial a união das organizações sindicais para barrar tais medidas que só tem o interesse no lucro.

 

A professora Dalila Andrade de Oliveira, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), expôs sua preocupação com a expansão da privatização e comercialização dos processos educativos no Brasil e as formas como o governo ilegítimo de Temer tem atuado. Ela lembrou dos antecedentes históricos na América Latina e a reforma do Estado que têm como objetivo avançar nas medidas contra os direitos sociais, citando pontos como as medidas de ajustes estruturais, políticas temporárias por meio de fundos públicos, a desregulação e flexibilidade da administração pública. Ela também explicou que existem duas formas de privatização. A endógena, que implica na importação de ideias, métodos e ferramentas da empresa privada; e a exógena, que implica na abertura dos serviços educativos à participação do setor privado, por meio de modalidades baseadas no benefício econômico e a utilização do setor privado, por diferentes aspectos. “Não podemos aceitar a colonização que o neoliberalismo tem feito com nossos docentes. Temos que ampliar a capacidade, ampliar nossa solidariedade para avançarmos contra essa privatização”, observou Dalila Andrade.

 

O professor Luiz Fernando Dourado, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG) questiona as medidas do governo ilegítimo neoliberal que busca transferir os fundos públicos para financiamento das redes privadas, como acontece muito no ensino superior particular, que é responsável por 75% das matrículas. “O maior grupo de ensino no país tem cerca de um milhão de alunos, 50% deles são financiados por recursos públicos”, alertou ele.

 

Segundo Dourado, os governos têm usados as OS (Organizações Sociais) e as PPPs (Parcerias Públicos e Privados) para fazer a transferência dos fundos públicos para as instituições privadas. “Não podemos aceitar a lógica desse movimento privatista de qualidade total, mas que negligencia a eficácia e não tem compromisso com uma educação para todos”, destacou.

 

Depois de três dias intensos de debates, os participantes do IV Encontro do Movimento Pedagógico Latino-Americano aprovaram a Declaração de Belo Horizonte, que vai indicar o rumo das políticas das organizações sindicais dos países da América Latina e teve como destaque a convocação de uma jornada de luta latino-americano para enfrentar a privatização e a mercantilização da educação.

 

Foram apresentadas as propostas aprovadas em cinco grupos de trabalhos.Dentre os temas debatidos: O futuro do trabalho dos profissionais da educação no contexto da mercantilização da educação e as novas formas de controle da produção do conhecimento; direito à educação e currículo; valorização profissional; gestão democrática e participação social; e estratégia sindical para o enfrentamento das políticas neoliberais.

 

O documento final reafirmou que o Movimento Pedagógico Latino-Americano assume o desafio de construir coletivamente os fundamentos de uma proposta de educação enraizada na cultura e na tradição política da educação como ferramenta para atender os setores populares.

 

Também foi ratificada a construção do processo para celebrar os 100 anos do nascimento de Paulo Freire, em 2021, e fazer o chamamento para que, todo dia 19 de setembro,as organizações da América Latina façam eventos comemorativos ao nascimento do patrono da educação brasileiro.

 

“Para nós é um orgulho muito grande manter viva a luta pela educação pública. Que é lutar pelos povos iluminados, pela vontade de construir esse sonho coletivo pela emancipação da América Latina, contra a opressão e o imperialismo”, declarou o presidente da Internacional da Educação para América Latina (IEAL), Hugo Yasky.

 

Para o presidente da CNTE, Heleno Araújo Filho, “Esse Movimento Pedagógico é o momento para construirmos propostas para interferirmos diretamente na América Latina. Temos que fazer o enfrentamento ao estado repressor. O mais importante é voltarmos para nossos locais de trabalho e fazer a mobilização para contrapormos às medidas desse governo golpista”, concluiu.

 

Hoje, dia da Consciência Negra, precisamos ressaltar que a educação pública ainda não é para todos, embora seja um caminho para se combater o preconceito e a discriminação. Ela deve ser preparada para acolher os filhos e filhas da classe trabalhadora, que em sua maioria são negros/as e pobres.Assim, o SINPROJA acata as deliberações deste encontro e encaminha a luta, por ter a convicção da necessidade de defender, de forma intransigente, o legado do Mestre Paulo Freire, que via a educação como um espaço de transformação social, de busca de justiça e de oportunidades.

 

“Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso que recusa o imobilismo. A escola em que se pensa, em que se cria, em que se fala, em que se adivinha, a escola que apaixonadamente diz sim à vida.” Paulo Freire

 

FONTE: www.cnte.org.br