O machismo mata

Conversando com a Base n. 19

O MACHISMO MATA

​​​Nossa categoria profissional é de trabalhadores e trabalhadoras em educação, mas somos, majoritariamente, uma categoria feminina. Bastaria esta razão para abordar o tema da violência contra as mulheres. Entretanto, qualquer sindicato tem o dever, enquanto agente coletivo de transformação social, de ser solidário a essa causa e contribuir no esforço em superar qualquer tipo de machismo e demais preconceitos e descriminações existentes na sociedade.

Há poucos dias acompanhamos pelas mídias o assassinato de mais uma mulher, Remís Carla da Costa. Infelizmente não é um caso isolado, mas um método da cultura machista dos homens para impor sua vontade às mulheres. Para termos uma ideia, vejam este relato: “Raphaella, de 16 anos, foi assassinada com 11 tiros por escolher não namorar seu assassino.

Kelly Cadamuro, de 22 anos, foi estuprada, asfixiada e teve seu corpo abandonado num córrego após dar carona para seu assassino.

Kristina Cohen, de 28 anos, foi levada por um produtor à casa de Ed Westwick, ator de Gossip Girl, ele sugeriu que ela dormisse no quarto de hóspedes. Kristina acordou sendo estuprada por Ed.

Camila de Abreu, 23 anos, foi assassinada com um tiro na cabeça pelo namorado, o capitão da PM Allisson Watson, após uma discussão. O assassino responde em liberdade e afirma que o tiro foi acidental.

Carlota Alonso, de 24 anos, ficou bêbada no Big Brother da Espanha e foi estuprada por José Perez. Os dois foram afastados do programa.

Allana, 10 anos, foi estuprada, assassinada, e enterrada no próprio quintal com as mãos amarradas e um saco plástico na cabeça pelo padrasto, de 28 anos que segue foragido.

Todos esses casos não aconteceram nos últimos seis meses. Aconteceram nos últimos seis dias. Até quando FEMINICÍDIO vai ser tratado como roubo de banana? Até quando a sociedade vai colocar desculpa para banalizar crime de ódio? Ciúme, separação, distúrbio emocional, guarda dos filhos, minissaia. Até onde vão empurrar a culpa para a vítima?!

Segundo a  (OMS) Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o quinto país mais perigoso do mundo para se nascer mulher. Não é mulher morrendo de acidente, nem de doença é FEMINICÍDIO! É controle da vida e da morte da mulher. É afirmação de posse, é igualar a um objeto que pode ser descartado. É destruição da identidade, é mutilação do corpo, do emocional e da alma. É mulher sendo assassinada somente por sua condição de ser mulher.  Homem quando não tem o que quer, mata. Isso não é excesso de amor, não é descontrole, não é crime “passional”. Isso é ódio, é FEMINICÍDIO. Quantas mais vão precisar morrer para a sociedade entender?

​Manoela Malta fez uma reflexão sobre o assassinato de Remís Carla, estudante de Pedagogia da UFPE.  Em seu texto ela não procura a culpa numa única pessoa, mas demonstra que numa sociedade que predomina a cultura machista, os assassinos de mulheres não desaparecerão apenas com a condenação do culpado, que tem que ser condenado conforme a lei e a gravidade do seu crime. Ela nos faz pensar a forma que estamos educando nossos filhos e filhas:

“Quem matou Remís? Aposto que você respondeu: foi o namorado dela. Mas aqui está a verdade: quem matou Remís foi você. Sim. Você que, um dia, disse orgulhoso(a): “prenda suas cabras que meu bode está solto!”.  Foi você que um dia bateu no ombro daquele amigo que acabou de saber que vai ser pai de menina e disse: “Haha! Virou fornecedor agora!”. Foi você que mandou sua filha lavar a louça, enquanto seu filho jogava futebol, porque ela é menina e ele é menino. Foi você que deu uma nave espacial ao seu filho e um fogãozinho à sua filha, porque “lugar de mulher é na cozinha”. Você que adora dizer: “mulher ao volante, perigo constante.” Você matou Remís no dia em que proibiu sua esposa de trabalhar, ou quando teve uma crise idiota de ciúmes bem na frente dos seus filhos que, um dia, farão o mesmo com a filha de alguém e na frente da sua filha que um dia vai passar por isso e vai achar que é normal um idiota feito você dar um xilique porque ela tem amigos, ou porque chegou mais tarde em casa. Você tirou a vida de Remís quando ensinou seu filho a soltar gracinha estúpida para uma menina ou passar a mão na bunda dela e correr dando risada. Você matou Remís, Marias, Anas, Joanas, dentre tantas outras quando você colocou sua pedrinha para construir e fortalecer o império do machismo que continua tirando vidas de mulheres no mundo inteiro. Você carrega nas mãos as marcas vermelhas do sangue e das lágrimas de todas essas mulheres que perdem suas vidas morrendo ou se aprisionando em relacionamentos abusivos com homens que não valem um fio de cabelo dessas mulheres. Agora, você deve estar aí, na frente da TV, provavelmente dizendo: “alguma coisa essa menina fez pro cara perder a cabeça!.

Perdemos mais uma. Entra mais uma na conta de vocês machistas. Sim, tenho esperança de que, um dia, venceremos esse monstro usurpador de vidas de mulheres, mas não sem educar nossos meninos e meninas, não sem pensar nas gerações futuras. Feminismo não é rótulo, Feminismo é a luta pelo direito à vida, ao espaço, à igualdade de oportunidades. #machismomata”

O que Manoela fala traz uma reflexão para nós professores e professoras, que lidamos todos os dias com crianças, que certamente são influenciadas pela cultura machista que é uma concepção social e não uma hereditariedade sanguínea. É uma aprendizagem profunda, que nos envolve (homens e mulheres) desde as primeiras proibições e frases ditas pelas pessoas que mais acreditamos, nossos pais e parentes.

Nós, trabalhadores e trabalhadoras em educação, temos dois caminhos a conduzir: manter, reafirmar, endossar toda aprendizagem machista, homofóbica e racista que as crianças trazem consigo para a escola, ou desconstruir estes conceitos e preconceitos sócio-culturalmente enraizados e que produzem mortes. Dissolver o machismo, a homofobia e o racismo é um dever fundamental do nosso ser educador e educadora, mais fácil numa criança do que em um adulto, embora o sucesso seja dificultado pela cultura predominante da sociedade, como as relações familiares patriarcais, as músicas que diminuem as mulheres, os fundamentos religiosos etc, pelos conceitos e práticas machistas que levamos para dentro das escolas, que podem reforçar o que as crianças trazem de fora.

A escola, enquanto instituição dentro da sociedade, tem seu papel nesta educação do ser humano integral. Para isso, tem que coibir todo tipo de ação, evento, comportamento e atitudes que reforcem o machismo, o racismo, a homofobia de todos e todas que trabalham nela.

Além de uma consciência crítica e transformadora da sociedade que nos leve a não praticar e ao mesmo tempo combater todos os tipos de machismos, precisamos agir motivados e motivadas pelo desejo de proteção às  nossas filhas, irmãs, esposas e  amigas para que não sejam vítimas da violência machista, que machuca o corpo e a alma e, também, mata.